O crescimento do Português na China

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    De AS-PG

    Tem havido um “crescimento” como nunca houve, em lado nenhum do mundo, do Português, nos últimos seis anos, na República Popular da China. Segundo o coordenador do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa, do Instituto Politécnico de Macau, ainda nem é possível revelar os números finais, dada a dimensão do país.

    “Os números que tenho dizem-me que na última meia dúzia de anos as instituições que oferecem Português, passaram de 6 para 32, na China continental das quais 22 oferecem em licenciatura e 10 em “minor”, que é um regime opcional ou complementar, afirma, em entrevista, Carlos Ascenso André.

    Assim, o número de estudantes cresceu de 400 para 2500, enquanto os docentes passaram de 12 para quase 150. “Isto é o crescimento que consegui registar em inquéritos totalmente fiáveis, porque são feitos directamente às instituições”, afirma. Falta ainda apurar os números dos chamados “colleges”, que não são de ensino superior, além do ensino não conferente de grau, que nem sequer está no radar das autoridades da República Popular da China.
    Na opinião do coordenador, trata-se de um crescimento sem precedentes. “Nunca aconteceu um crescimento tão exponencial, em parte alguma do mundo, até hoje”, diz. Tendo estado ligado à fundação da Associação Internacional de Lusitanistas, Carlos Ascenso André refere que, até hoje, o maior crescimento a ocorrer na
    História é o do Português nos Estados Unidos, no final do século passado. E foi um movimento diferente. “Foi muito grande, mas não a este nível — e é preciso ter em conta que nos Estados Unidos há comunidades portuguesas, há um fluxo migratório, além das razões de mercado”, refere.
    Pelo contrário, nesta parte da Ásia, em particular na República Popular da China, “não há migração”, dando-se este crescimento por motivos puramente económicos. “Há um grande investimento chinês nos países da lusofonia. Em Moçambique e Angola, uma grande parte da infra-estruturação é feita pela República Popular da China ou por empresas da República Popular da China e, como as línguas são substancialmente diferentes, e os chineses que vão para lá, não vão viver em guetos, embora vivam em comunidades, é preciso acompanhá-los”, diz, esclarecendo que é nesse contexto que surgem os tradutores. “É aí que acontece a necessidade de quadros de topo aprenderem a falar Português, até porque nestes países, as pessoas não se entendem em Inglês e, portanto, a língua que têm de usar é o Chinês — mas o Chinês é muito difícil para os falantes de língua portuguesa — ou o Português, e, mesmo sendo difícil, os chineses aprendem mais depressa o Português do que nós [lusófonos] o Chinês”, esclarece.
    No resto da região Ásia-Pacífico, o crescimento do Português tem sido comparativamente mais vagaroso. Tem tudo a ver com razões de mercado, são países emergentes e nenhum com a dimensão da República Popular da China.”


    Macau, como mediadora
    Ainda que o crescimento seja grande, tem problemas de base. “Não há uma organização de base que passe por uma segmentação correcta dos cursos por uma malha curricular estruturada. Não há materiais de apoio e os docentes não têm formação. Os docentes falam muito bem Português, mas dizer que isso é condição única para que sejam bons professores de Português não é verdade”, realça, esclarecendo que “os docentes fizeram formação em cursos de língua portuguesa, que são para aprender a usar a Língua, mas não para ensinar”.
    Macau pode desempenhar um “papel importante” neste processo. “Primeiro, por razões geográficas; depois, porque o território tem cinco séculos de convergência de culturas, de diálogo cultural sino-luso, e o que dá identidade a Macau é esse diálogo de culturas”, diz. Além disso, Macau tem “recursos” para fazê-lo, havendo ainda “vontade estratégica” por parte das instituições do território, do Executivo da RAEM bem como do Governo Central. Porém, Carlos Ascenso André costuma apontar “três equívocos”, quando se fala neste papel de plataforma que Macau pode exercer. O primeiro refere-se às instituições portuguesas que pensam que “podem resolver este problema a www.ipm.edu.mo Tem havido um “crescimento” partir de Portugal”, quando não têm dinheiro para isso, é longe e não são chinesas, passando, necessariamente, por maiores dificuldades de acesso à República Popular da China.

    Depois, Carlos Ascenso André afirma que “o segundo equívoco” prende-se com o facto de as instituições de ensino portuguesas “pensarem que podem resolver isto, concorrendo umas com as outras, tentando penetrar na China continental e na Ásia, e captar parceiros que lhes dão jeito do ponto de vista da sobrevivência financeira ou da saúde financeira das suas instituições”.
    Finalmente, aponta o coordenador, o território costuma pensar que pode resolver o problema sozinho. “Macau não tem suficiente massa crítica, ou seja, não tem suficientes recursos humanos e a única forma de resolver isto é disponibilizando-se a ser plataforma no diálogo com as instituições de Portugal e do Brasil”, esclarece.

    Um papel real

    Há sinais de que esse papel de mediador está a funcionar cada vez mais. “Por exemplo, há cursos no Instituto Politécnico de Macau e na Universidade de Macau com muitos alunos da China continental”, refere.
    Depois, nos últimos três anos, conseguiu-se criar uma rede de diálogo entre as diferentes instituições, pondo-as a conversar, além de se terem começado a criar mecanismos de formação. O Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa do Instituto Politécnico de Macau promoveu a criação do primeiro curso de mestrado em Ensino do Português como Língua Estrangeira na China Continental, estando actualmente a proceder à selecção e admissão de alunos. Ministrado na Universidade
    de de Estudos Estrangeiros de Cantão, o curso da Universidade de Coimbra terá início já em Outubro. O corpo docente será constituído por seis professores — quatro da Universidade de Coimbra e dois do Instituto Politécnico de Macau.

    Além disso, dada a “falta de materiais” de que se queixam os professores na China continental, Carlos Ascenso André refere mais uma vitória. “Editámos aqui em Macau o Português Global, que já vai no quarto volume, mas o livro aqui editado não penetrava na China. Conseguimos negociar com uma grande editora chinesa [a Commercial Press] e, através dela, o livro vai ser editado e estará disponível a partir da China continental”, diz.
    Entre os planos do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa do IPM, encontram-se ainda a disponibilização da série “Português Global”, na Internete, recorrendo a uma plataforma chinesa. Este projecto e o quarto volume do “Português Global” deverão ser uma realidade até ao fim do ano.
    Além disso, o IPM lançou as obras “O Delta Literário de Macau” – a cargo do professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, José Carlos Seabra Pereira – e o “Glossário Português-Chinês de Expressões e Provérbios Portugueses”  – da autoria de Li Fei e de Jorge Bruxo.
    Há, no entanto, alguns passos a dar em Macau, nomeadamente o de criar uma melhor articulação entre as diferentes instituições ligadas à língua portuguesa. “Já foram dados passos significativos nesse sentido, através do GAES [Gabinete de Apoio ao Ensino Superior], quando o Executivo da RAEM criou aquele grupo especializado de talentos bilingues
    [Grupo de Trabalho sobre a Formação de Quadros Bilingues Qualificados nas Línguas Chinesa e Portuguesa] — que tem produzido trabalho e tem posto as pessoas à volta da mesa para conversarem”, refere.
    Porém, ainda falta vencer algumas barreiras, procurando impor a lógica da complementaridade. “Temos de descobrir como se encaixa tudo num puzzle conjunto, perceber que estamos todos ao serviço dos mesmos objectivos”, diz. Além disso, Macau terá outras dificuldades em prosseguir este papel. “Na China continental a grandeza é tanta, que não temos capacidade de resposta. Mesmo que eu queira dar formação a todos, não consigo dar oito formações por ano, não tenho meios para fazê-las”, afirma. E, em Portugal, é muito difícil convencer um professor no topo da carreira a mudar para esta parte mundo. “Não podemos fazer isto com jovens licenciados e as pessoas altamente qualificadas não estão disponíveis”, esclarece.
    Porém, defende, o segredo é “não esmorecer”, tendo sempre presente as questões de mercado por detrás do interesse na República Popular da China pelo Portuguê

     

    Texto de LUCIANA LEITÃO. Pode ler-se em pdf aqui:  O “CRESCIMENTO EXPONENCIAL” DO PORTUGUÊS