Romantizar o colonialismo

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Quando estava na universidade, Grada Kilomba era a única estudante negra em todo o departamento de psicologia clínica e psicanálise. Nos hospitais, para onde foi trabalhar depois, era comum ser confundida com a senhora da limpeza. E por vezes os pacientes recusavam-se a ser vistas por ela. Na primeira vez que visitou a biblioteca da Freie Universität de Berlim, onde estava a fazer o doutoramento, uma funcionária interpelou-a em voz alta: "Você não é daqui, pois não? A biblioteca é só para estudantes universitários!" Episódios assim são bastante comuns, acabou por descobrir. Alguns deles estão relatados no livro Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Quotidiano, editado pela primeira vez na Alemanha, em 2008, e que agora, finalmente, mais de dez anos depois, é editado em Portugal pela Orfeu Negro.

Nascida em Lisboa, Grada Kilomba estudou psicologia e trabalhou nos hospitais Miguel Bombarda e Júlio de Matos, onde se interessou pelos casos dos sobreviventes da guerra e pelo trauma relacionado com o colonialismo. Rapidamente percebeu que o seu trabalho - fosse na área da psicologia ou fosse, como acabou por ser, na área do pensamento e da arte - iria andar sempre em torno da questão do colonialismo e do pós-colonialismo ou, de uma maneira mais ampla, em torno das questões do poder e de como as sociedades produzem a ideia de normal/diferente.

Esses temas já eram muito claros quando quis fazer o seu doutoramento em filosofia: "Comecei por fazer entrevistas com várias mulheres de diferentes diásporas africanas que viviam em Berlim para trazer essa globalidade da experiência negra", explica a autora. "Depois, eu queria criar uma compilação de histórias escritas em forma psicanalítica e assim cruzar uma série de disciplinas. (De Diário de Notícias)